Blog da Clínica Ego
Uma Clínica Mais Que Psiquiátrica
sábado, 9 de julho de 2011
O TÊNUE LIMITE ENTRE O LEITO PSIQUIÁTRICO E QUESTÃO SOCIAL DO PACIENTE
A Psiquiatria já foi acusada de mera ideologia repressiva a favor de um sistema que produz seus critérios de saúde e doença , para garantir que a sociedade não só tenha um diferencial mas possa legitimar sua normalidade .
Teses que ganharam força algumas décadas atrás e que hoje , embora tenham tido o mérito de colocar questões corajosas , já não empolgam tanto.
Ou porque romancearam demais o sofrimento mental , ou por falta de ufanismos mais atuais acabaram em desuso, cedendo à imposição reinante de que à doença tenha se tornado mais um exercício psicofarmácologico do que psiquiátrico propriamente dito , com todas implicações que as rupturas do tecido mental acarrete no doente.
Sem negar o valor da farmácia da mente , é difícil pensar o doente fora de sua circunstância, como observava Ortega Gasset , pois quando o meio é doentio , é extremamente difícil precisar o que é de quem , já que o sistema vigente não comporta a saúde de seus membros,ou seja , todos encarnam uma loucura comum .
O paciente psiquiátrico também já foi considerado o mais forte do grupo , como aquele que podia suportar a doença negada de todos e denunciá-la em seus mecanismos sabotadores, como uma rede de comunicação duvidosa , o chamado duplo-vínculo , bem estudado em Palo Alto por Gregory Bateson , o núcleo da divisão psicótica segundo estes estudiosos.
Hoje, embora já não tenhamos teses empolgantes, que promovam debates calorosos , continuamos a tratar das mesmas doenças e com os mesmos problemas de sempre . algo como uma entressafra , à espera de alguma coisa nova de novos apontes.
Feita as contas , parece, que ao mesmo tempo, que incorporamos os valores que cada experiência nos deixou, nos rendemos ao cotidiano operacional munidos de um aparato médico tão convencional, que nos perguntamos aonde ficaram alocados os ganhos de tudo que foi feito .
A doença que já foi alvo de exortações até artísticas e cotejada como uma desrepressão de um modo doentio e estabelecido de ser , voltou ao lugar comum de uma catalogação médica , cujo tema central hoje é inclusão , que passararemos então a desenvolver.
Aqui no Brasil estabeleceu-se em determinado momento histórico , a chamada Reforma Psiquiátrica , cujo foco a princípio visava não só uma mudança nas políticas de saúde mental, bem como, a extinção do Hospital Psiquiátrico . Tinha-se em conta a idéia , já implantada , de se fazer uma rede de atendimentos primários e secundários , os chamados Centros de Atendimentos Psicossociais que seriam responsáveis pelo tratamento dos doentes em regime aberto , com atividades variadas e integrativas.
Junto com isso , fomentou-se também a possibilidade de Lares abrigados e Assistidos, onde os pacientes sem familias ou condições sociais precárias poderiam morar.
DIga-se, de forma justa que combatia-se o chamado Hospício , o depósito de loucos alienados e que passou a ser visto como négocio por parte de empresários mal intencionados . Para isso, buscou-se a mídia, que por sua vez, sem compromisso com a realidade do cotidiano institucional , passou a veícular o lado difícil das Instituições , sem entrar nos méritos de toda pervesão social presente , como se de repente, a sociedade tivesse resolvido se interessar pelos seus excluídos.
Nada disso. Ancorados por uma ideologia de teor libertador , buscou-se o quebrar das algemas , como se só alguns quissesse isso , sem se confesar aí a indiferença reinante até então ,e ainda em voga como veremos, com relação ao doente mental , essa criatura que além de sofrer e muito , ainda dá despesa a família, e não é, e nunca foi, bem visto pelo sistema vigente.
Postula-se aí, que a dimensão politíca da questão parece insuficiente para alcançar toda dimensão amorosa envolvida , o inter- jogo de ligações vinculativas que sustentam o nexo da estrutura mental , mesmo que comprometida.
O doente quer amor como nós , quer atenção , ser escutado , requer cuidados higiênicos , quer ser incluído , o apêlo que por vezes a família ou não escuta , ou não quer escutar por lhe custar incluir .
Na verdade, é como em algum nível fossemos fiscais de uma justiça, que é chamada a quase todo tempo para julgar razões entrelaçadas de vetores variados , que vão muito além de uma mera questão técnica, desencontros na ordem do amor , que parecem ter raízes na noite dos tempos.
É esse aspecto essencial do trabalho que sempre nos remete aos limites da profissão e do alcance das terapêuticas disponíveis. Pois se por um lado , busca-se reerguer o paciente quando desequilibrado , oferecendo-se medicações adequadas , inserido-o em trabalhos terapêuticos,...etc, por outro observa-se o tempo todo, que o mesmo ,perquire sobre sua destinação social, sobre sua volta à família .
E sabemos, o quanto melhorar ou piorar, é em muitos casos um regulador da dinâmica familiar , pois se pra quem trabalha na terapêutica do doente vê-lo progredir é uma alegria , por outro pra família , pode ser um transtorno , pois voltará pra casa.
A equação aí não é linear , portanto , não cabe políticas retas , que não levam em conta o oblíquo de cada situação .
O Dr Antonio Celso , psicanalista e belo estudioso , afirma que o "Hospital Psiquiátrico ainda é o meio mais protegido de se viver a loucura"e é mesmo , pois , não há linguagem para o surto , o Outro aí é a ruptura do simbólico , ou seja , o Real em sua violência invasiva.
Contém-se e conversa-se depois , medica-se para se criar uma condição de escuta , medidas imprescindíveis como forma de proteção ao doente e aos outros.
Mas e quando o paciente uma vez recuperado , não é querido pela famíla? ou quando em condições não tem pra onde ir? e quando constatamos que a família é mais comprometida que o próprio?
Por outro lado , há todo apêlo para que as internações sejam curtas (algo como 20 dias) e busca-se combater a longa permanência ( afinal um dos méritos da Reforma foi extinguir um nº considerável de leitos ,abaixo do preconizado pela OMS ) e há muita gente querendo internar.
Com isso muitos problemas conjunturais passaram a acontecer , pois uma vez pronto e não tendo pra onde ir , esperava-se então que as diretrizes políticas implantadas indicassem o caminho, de forma efetiva.Mas não , não é o que acontece.
Os municípios responsáveis pelos seus moradores nem sempre ou quase nunca têm recursos para oferecer soluções , pois doente dá trabalho e muito, os lares abrigados ainda são ficções perante à demanda , e o Estado nem sempre sabe o que fazer.
Enfim , uma rede afim e com muitas coisa desafinada, pois muito do que se prometeu não se cumpriu ,e muita coisa ficou no papel , enquanto no dia-a -dia da vida tudo tem pressa e urge, principalmente quando há dor em jogo , ou o gozo dos que excluem.
Eis o que escreve a Drª Juliana , assistente social da Clínica Ego :" Há uma redução de leitos psiquiátricos em número superior à criação dos chamados " serviços comunitários alternativos ao asilamento",cujo potencial de oferta é limitado, em especial, os hospital-dia, que acaba por atender à uma clientela com prognóstico leve e favorável ,relegando as famílias a tarefa de haver com seus doentes crônicos, e arcar com todas as dificuldades que isso significa num sistema de saúde , como o nosso."
Temos, sem dúvida, muito a aprender uns com os outros , e seria bom que nos escutassemos, já que trabalhamos para o bem comum, mas sem imaginários inimigos e desnecessários , já que a loucura é que nos move e com ela aprendemos a nos comover .
Conversemos então de perto no próximo Encontro Regional , que já vem aí.
Valeu
domingo, 22 de maio de 2011
ASSISTÊNCIA PSIQUIÁTRICA
-
Quem assiste e quem é assistido ?
Falar em assistência psiquiátrica , nos têrmos em que hoje se consagra , é conjugar quase momentâneamente uma história irregular , de muitas tentativas , onde ao longo do tempo e do jogo de forças sociais e terapêuticas ,muitos ensaios e muitos erros aconteceram.
Havia aí, como hoje, uma necessidade humana de encontrar uma resposta efetiva para este fenômeno , que embora milenar , sempre foi um grande desafio para os saberes estabelecidos. A idéia de uma mente que se destrói , um cenário de tormentos enigmáticos,dores que nunca disseram de onde vieram, e a possibilidade real ou fantasiosa de ser um destino comum, fez com que muitas ações ocupassem um espaço empiríco, na conta de uma potência que devolvesse minimamente que fosse, a garantia de termos um tratamento a oferecer.
Constatar um mal e não ter como combatê-lo, é algo que excita o imaginário humano. Com as enfermidades psiquiátricas pudemos bem observar este desafio . Se por um lado o doente sofria dos males do além , um tipo de interpretação que nos induzia a uma ação moralista ou incriminadora , por outro as tentativas se sucediam numa busca frenética de oferecer algum conforto possível para estas torturas , difíceis inclusive de se ver.
O doente, na medida, em que ocupava um lugar sinistro , cheio de obscuridades e de culminâncias ignorantes , acabou sendo uma ameaça a fantasia de normalidade que rege a ordem social . A exclusão se fez e rápido , não dava para continuar junto com criaturas que passamos a estranhar e que se por um lado reconhecíamos o mesmo mito de origem , o humano , por outro, somos dependentes e cheios de medo no que se refere à questões de identidade .
Depois de fazê-los navegar por aí , na conta dos favores da cidade , aportamos essa nau dos insensatos diretamente para espaços reclusos e cheios de códigos de segurança , sem saber exatamente o que queríamos proteger .
`A princípio e tudo se repete , essa nau era dos excluídos em geral, os párias tão conhecidos da cultura européia com seus castelos e luxos , um certo lixo social definidos como não pertencentes , uma negação ao direito de cidadania mental e vinculativa .
Foi preciso esperar Pinel, para que um gesto de piedade pudesse restituir ao doente, o direito simples, de sofrer mentalmente. Nota-se aqui que o sofrimento mental , por requerer acuidade sensível no olhar , nem sempre foi tido na conta de sofrimento propriamente dito e , por muitas vezes foi indiciado como simulação . Até hoje esta questão não é fácil e se tornou inclusive um álibi nas mãos dos que querem benefícios sociais apelando para tal expediente.
Intuiu-se finalmente que ,embora o sofrimento mental fosse cheio de enigmas desafiadores,era um sofrimento tão humano como qualquer outro , e que por isso não poderia prenscidir da ordem dos cuidados e atenções que os enfermos requerem.
Uma das grandes dificuldades que se apresentava é que o doente mental transgride a chamada lei da compensação , a lei que estabelece as reciprocidades no convívio .
O valor do que se dá e o reconhecimento do que se recebe , a campo das transações que seguem a ordem do amor e que não podendo ser assim , muitos tormentos estabelece.
O doente mental procura seu pertencimento , o lugar de seu reconhecimento dentro da ordem humana e que compromente a todos nós , pois diz respeito a como alijamos os que nos exigem e nos dão pouco retorno .
Não são produtivos , dão trabalho, devolvem pouco nos moldes usuais , e ainda afetam a vida de seus familiares , que por sua vez , buscam se socorrer da ordem social.
Uma cadeia entrelaçada de busca de soluções e de problemas urgentes , que qualquer leitura que pretenda repropor sem levar tudo isso em conta , ou de forma apressada , corre o risco de perder a alma de suas inovações e se tornar um mero catecismo político.
Se a "impotência gera violência" como diz o filósofo , a doença mental é um campo dessas duas faces e sua história permeia as duas num tipo de entrelaçamento difícil de separar.
A violência deve um capítulo à Psiquiatria , pois depois de importar métodos consagrados em outras áreas sociais , o louco enquanto este eterno desconhecido fez com que a própria violência tivesse que se reinventar.
Banhos frios independente da temperatura ambiente , camisa de força , espancamento pouco assumidos , e outras modalidades de tratos de contenção , estiveram em voga durante muito tempo , pois eram expressão dos nervos de quem cuidava e ação de exclusão da conveniência social.
Com o aparecimento das medicações químicas ,especialmente os neurolépticos , houve uma re-alocação dos lugares do universo psiquiátrico , pois a doença se tornou menos desfigurativa , diminuindo a força de sequestro da identidade social do doente , pelo menos de imediato, já que os efeitos medicamentosos permitiram uma certa manutenção das forças psíquicas que sustentam a vida interativa.
Essa é considerada uma grande revolução da Psiquiatria , por tudo que possibilitou , ou seja, a des-demonização da doença , e manutenção de um potência que enfraqueceu teoricamente o sinistro. Avançamos no terreno do conhecimento neuro-científico e temos tido bons ganhos com o avanço das medicações , o que por outro lado , só fez aumentar nossa ignorância , pois , temos os modelos dos efeitos na linha de frente .
Não sabemos causas, mas aprendemos a combater os efeitos e já estamos arriscando hipóteses mais ousadas , embora , nos rendendo as evidências da complexidade do campo mental . Talvez compreender a mente , seja compreender o próprio mistério da vida , e parece ser nossa vocação este querer saber .
Várias tentativas e experiências alternativas já foram feitas ao longo do trajeto , por conta de se buscar algum tipo de vanguarda nas interpretações consideradas a favor do staus quo. Desde de leituras de ideologias políticas , até a doença como uma experiência liberal e desrepressiva , muitas forças inteligentes e estudiosas se movimentaram e se enfrentaram , e até hoje se enfrentam , mostrando que o campo psi , é um campo gerador de suas próprias tensões .
A chamada Reforma Psquiátrica , se precipitando como uma Reforma libertadora ,propunha uma alteração no roteiro estabelecido para o tratamento psiquátrico , tendo em vista a possibilidade de não se ter mais o hospital psiquiátrico .
O doente seria atendido , a princípio , nas chamadas redes complementares com seus núcleos assistênciais , chegando inclusive a se cogitar que , em caso de necessidade, seria atendido em enfermarias estabelecidas no próprio hospital geral .
Tendo a questão da inclusão social como foco , buscava-se com isso evitar que , uma vez que o modelo foi considerado facilitador da alienação , dificultar a internação e manter o doente o mais possível no âmbito familiar e social .
Com isso partiu-se para uma política de exigências severas aos ditos hospitais , levando muitos prestadores de serviço nessa área a desistirem de continuarem .
Até segunda ordem, todos hospitais foram considerados suspeitos , e definiu-se uma série de critérios para que houvesse uma avaliação no sentido de se ver o que prestava ou não.
Alimentados, pela fantasia sombria, de que todos eram lugar do mal a ser combatido , em nome de um ideologia supostamente libertadora, criou-se várias regras de funcionamento , sem se fazer acompanhar pelo aumento diárias , um modo de inviabilização legal.
Humanismo , um tanto contestado, acabou reduzindo em muito o nº de leitos psiquiátricos, que hoje , já mostram seus efeitos , já que esta redução não se fez acompanhar de uma ação efetiva de construção dessa rede complementar , que tem resultado em críticas as políticas de gabinete . Óbvio, que muitos não lerão assim , argumentaram que muito já se fez, o que não negamos , mas levando-se em conta um país como o Brasil em sua extensão , experiências situadas não servem como parâmetro geral , e que uma característica da doença mental é sua urgência.
Passou-se a correr o risco de que o espaço pretendido politicamente se confunda com o próprio espaço imaginário do saber em suas pretensões políticas, o que é um equívoco grave quando se trata do sofrimento alheio.
Com isso congestionou-se muita coisa e os leitos passaram a ser concorridos por todas as forças de intervenção, inclusive , pelo aparelho judicial , hoje requisitado pelas famílias para garantirem a internação dos seus doentes.
Obviamente , que em se tratando de assistência, é impossível separar a prática terapêutica do modelo geral proposto , já que este é que define suas regras e exige obediência.
Hoje, parece que estamos todos aprendendo melhor o que a experiência vem ensinando e que não é possível execrar o hospital,na conta do vilão que segrega e mantém a alienação.
Descentralizar o hospital psiquiátrico é rever o modelo que foi estabelecido e colocá-lo no lugar depois , ou seja , do que não foi possível antes, evitando internações desnecessárias e oferecendo uma boa rede de atuação primária e secundária .
Dessa forma teremos uma ação conjunta que de fato possa funcionar, e leve em conta , a singularidade de cada caso , já que a clínica é singular .Aonde houver urgências , perigo de vida , transtornos agudos com agitações que requerem intervenções , quadros depressivos e outros que tenham o hospital como melhor recurso , então , que seja este o caminho .
Um hospital de qualidade , dinâmico , com modalidades variadas de atendimento , um hospital afinado com a inclusão , e que por muitas vezes é obrigado a arcar com a exclusão de todos , dos que não querem o doente ou dos que não sabem o que fazer , e que sem dúvida, pode prestar um serviço humano e intransferível , por ser a instância mais capacitada para tal fim.
As tensões decorrentes desse modelo e suas propostas, é o que pretendemos discutir em nosso fórum de forma ampla e justa , e contamos com presença de todos que lutam nessa área para juntos oferecermos nossas propostas estudiosas.
Mandem suas observações ,conversemos, já aquecendo nosso Encontro.
Quem assiste e quem é assistido ?
Falar em assistência psiquiátrica , nos têrmos em que hoje se consagra , é conjugar quase momentâneamente uma história irregular , de muitas tentativas , onde ao longo do tempo e do jogo de forças sociais e terapêuticas ,muitos ensaios e muitos erros aconteceram.
Havia aí, como hoje, uma necessidade humana de encontrar uma resposta efetiva para este fenômeno , que embora milenar , sempre foi um grande desafio para os saberes estabelecidos. A idéia de uma mente que se destrói , um cenário de tormentos enigmáticos,dores que nunca disseram de onde vieram, e a possibilidade real ou fantasiosa de ser um destino comum, fez com que muitas ações ocupassem um espaço empiríco, na conta de uma potência que devolvesse minimamente que fosse, a garantia de termos um tratamento a oferecer.
Constatar um mal e não ter como combatê-lo, é algo que excita o imaginário humano. Com as enfermidades psiquiátricas pudemos bem observar este desafio . Se por um lado o doente sofria dos males do além , um tipo de interpretação que nos induzia a uma ação moralista ou incriminadora , por outro as tentativas se sucediam numa busca frenética de oferecer algum conforto possível para estas torturas , difíceis inclusive de se ver.
O doente, na medida, em que ocupava um lugar sinistro , cheio de obscuridades e de culminâncias ignorantes , acabou sendo uma ameaça a fantasia de normalidade que rege a ordem social . A exclusão se fez e rápido , não dava para continuar junto com criaturas que passamos a estranhar e que se por um lado reconhecíamos o mesmo mito de origem , o humano , por outro, somos dependentes e cheios de medo no que se refere à questões de identidade .
Depois de fazê-los navegar por aí , na conta dos favores da cidade , aportamos essa nau dos insensatos diretamente para espaços reclusos e cheios de códigos de segurança , sem saber exatamente o que queríamos proteger .
`A princípio e tudo se repete , essa nau era dos excluídos em geral, os párias tão conhecidos da cultura européia com seus castelos e luxos , um certo lixo social definidos como não pertencentes , uma negação ao direito de cidadania mental e vinculativa .
Foi preciso esperar Pinel, para que um gesto de piedade pudesse restituir ao doente, o direito simples, de sofrer mentalmente. Nota-se aqui que o sofrimento mental , por requerer acuidade sensível no olhar , nem sempre foi tido na conta de sofrimento propriamente dito e , por muitas vezes foi indiciado como simulação . Até hoje esta questão não é fácil e se tornou inclusive um álibi nas mãos dos que querem benefícios sociais apelando para tal expediente.
Intuiu-se finalmente que ,embora o sofrimento mental fosse cheio de enigmas desafiadores,era um sofrimento tão humano como qualquer outro , e que por isso não poderia prenscidir da ordem dos cuidados e atenções que os enfermos requerem.
Uma das grandes dificuldades que se apresentava é que o doente mental transgride a chamada lei da compensação , a lei que estabelece as reciprocidades no convívio .
O valor do que se dá e o reconhecimento do que se recebe , a campo das transações que seguem a ordem do amor e que não podendo ser assim , muitos tormentos estabelece.
O doente mental procura seu pertencimento , o lugar de seu reconhecimento dentro da ordem humana e que compromente a todos nós , pois diz respeito a como alijamos os que nos exigem e nos dão pouco retorno .
Não são produtivos , dão trabalho, devolvem pouco nos moldes usuais , e ainda afetam a vida de seus familiares , que por sua vez , buscam se socorrer da ordem social.
Uma cadeia entrelaçada de busca de soluções e de problemas urgentes , que qualquer leitura que pretenda repropor sem levar tudo isso em conta , ou de forma apressada , corre o risco de perder a alma de suas inovações e se tornar um mero catecismo político.
Se a "impotência gera violência" como diz o filósofo , a doença mental é um campo dessas duas faces e sua história permeia as duas num tipo de entrelaçamento difícil de separar.
A violência deve um capítulo à Psiquiatria , pois depois de importar métodos consagrados em outras áreas sociais , o louco enquanto este eterno desconhecido fez com que a própria violência tivesse que se reinventar.
Banhos frios independente da temperatura ambiente , camisa de força , espancamento pouco assumidos , e outras modalidades de tratos de contenção , estiveram em voga durante muito tempo , pois eram expressão dos nervos de quem cuidava e ação de exclusão da conveniência social.
Com o aparecimento das medicações químicas ,especialmente os neurolépticos , houve uma re-alocação dos lugares do universo psiquiátrico , pois a doença se tornou menos desfigurativa , diminuindo a força de sequestro da identidade social do doente , pelo menos de imediato, já que os efeitos medicamentosos permitiram uma certa manutenção das forças psíquicas que sustentam a vida interativa.
Essa é considerada uma grande revolução da Psiquiatria , por tudo que possibilitou , ou seja, a des-demonização da doença , e manutenção de um potência que enfraqueceu teoricamente o sinistro. Avançamos no terreno do conhecimento neuro-científico e temos tido bons ganhos com o avanço das medicações , o que por outro lado , só fez aumentar nossa ignorância , pois , temos os modelos dos efeitos na linha de frente .
Não sabemos causas, mas aprendemos a combater os efeitos e já estamos arriscando hipóteses mais ousadas , embora , nos rendendo as evidências da complexidade do campo mental . Talvez compreender a mente , seja compreender o próprio mistério da vida , e parece ser nossa vocação este querer saber .
Várias tentativas e experiências alternativas já foram feitas ao longo do trajeto , por conta de se buscar algum tipo de vanguarda nas interpretações consideradas a favor do staus quo. Desde de leituras de ideologias políticas , até a doença como uma experiência liberal e desrepressiva , muitas forças inteligentes e estudiosas se movimentaram e se enfrentaram , e até hoje se enfrentam , mostrando que o campo psi , é um campo gerador de suas próprias tensões .
A chamada Reforma Psquiátrica , se precipitando como uma Reforma libertadora ,propunha uma alteração no roteiro estabelecido para o tratamento psiquátrico , tendo em vista a possibilidade de não se ter mais o hospital psiquiátrico .
O doente seria atendido , a princípio , nas chamadas redes complementares com seus núcleos assistênciais , chegando inclusive a se cogitar que , em caso de necessidade, seria atendido em enfermarias estabelecidas no próprio hospital geral .
Tendo a questão da inclusão social como foco , buscava-se com isso evitar que , uma vez que o modelo foi considerado facilitador da alienação , dificultar a internação e manter o doente o mais possível no âmbito familiar e social .
Com isso partiu-se para uma política de exigências severas aos ditos hospitais , levando muitos prestadores de serviço nessa área a desistirem de continuarem .
Até segunda ordem, todos hospitais foram considerados suspeitos , e definiu-se uma série de critérios para que houvesse uma avaliação no sentido de se ver o que prestava ou não.
Alimentados, pela fantasia sombria, de que todos eram lugar do mal a ser combatido , em nome de um ideologia supostamente libertadora, criou-se várias regras de funcionamento , sem se fazer acompanhar pelo aumento diárias , um modo de inviabilização legal.
Humanismo , um tanto contestado, acabou reduzindo em muito o nº de leitos psiquiátricos, que hoje , já mostram seus efeitos , já que esta redução não se fez acompanhar de uma ação efetiva de construção dessa rede complementar , que tem resultado em críticas as políticas de gabinete . Óbvio, que muitos não lerão assim , argumentaram que muito já se fez, o que não negamos , mas levando-se em conta um país como o Brasil em sua extensão , experiências situadas não servem como parâmetro geral , e que uma característica da doença mental é sua urgência.
Passou-se a correr o risco de que o espaço pretendido politicamente se confunda com o próprio espaço imaginário do saber em suas pretensões políticas, o que é um equívoco grave quando se trata do sofrimento alheio.
Com isso congestionou-se muita coisa e os leitos passaram a ser concorridos por todas as forças de intervenção, inclusive , pelo aparelho judicial , hoje requisitado pelas famílias para garantirem a internação dos seus doentes.
Obviamente , que em se tratando de assistência, é impossível separar a prática terapêutica do modelo geral proposto , já que este é que define suas regras e exige obediência.
Hoje, parece que estamos todos aprendendo melhor o que a experiência vem ensinando e que não é possível execrar o hospital,na conta do vilão que segrega e mantém a alienação.
Descentralizar o hospital psiquiátrico é rever o modelo que foi estabelecido e colocá-lo no lugar depois , ou seja , do que não foi possível antes, evitando internações desnecessárias e oferecendo uma boa rede de atuação primária e secundária .
Dessa forma teremos uma ação conjunta que de fato possa funcionar, e leve em conta , a singularidade de cada caso , já que a clínica é singular .Aonde houver urgências , perigo de vida , transtornos agudos com agitações que requerem intervenções , quadros depressivos e outros que tenham o hospital como melhor recurso , então , que seja este o caminho .
Um hospital de qualidade , dinâmico , com modalidades variadas de atendimento , um hospital afinado com a inclusão , e que por muitas vezes é obrigado a arcar com a exclusão de todos , dos que não querem o doente ou dos que não sabem o que fazer , e que sem dúvida, pode prestar um serviço humano e intransferível , por ser a instância mais capacitada para tal fim.
As tensões decorrentes desse modelo e suas propostas, é o que pretendemos discutir em nosso fórum de forma ampla e justa , e contamos com presença de todos que lutam nessa área para juntos oferecermos nossas propostas estudiosas.
Mandem suas observações ,conversemos, já aquecendo nosso Encontro.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Nosso blog da Ego
Falar em Psiquiatria hoje é falar de uma prática, cujos fundamentos urgem ser recolocados , pois com o advento das medicações e com uma demanda crescente de apêlos pelos mesmos, o campo ficou confuso, pois hoje é sabido que quase todos médicos se autorizam a medicar psiquicamente seus pacientes.
Atendem a demanda por conta, por muitas vezes, de mostrarem serviço e de bem cobrar seus honorários. Convém ressaltar que os chamados psicofármacos não são uma panacéia para todos males das mentes enfermas .E só cuidadosamente devem ser usados , pois convém também saber que todos eles têm efeitos colaterais e podem dependendo do tipo usado , causar dependências.
Nossa idéia então é termos um canal de informações que nos permita esclarecer, trocar e estimular uma participação ativa do público leigo, pois a alienação é um perigo que nos ronda sempre. Um público esclarecido , que chega perto do que coloca pra dentro, é um público que ajuda a consciência da verdade. Chega de tapeação. Nosso corpo e nossa mente são preciosos demais e precisam ser cuidados para nos ajudar a manter a vida num patamar de excelência.
Se os maltratarmos pagamos um preço, em geral alto,pois há sempre reações que causam desconfortos variados .
O tema do psiquismo e seus desequilíbrios é fascinante para quem estuda e ao mesmo tempo , um campo de tanta dor e sofrimento de todos os tipos , e que envolve tantos fatores que toda humildade aí é pouca , principalmente em se tratando da existência dos outros.
Teremos um blog de amplo espectro com assuntos variados e que seja de interesse geral.
Buscaremos uma linguagem simples e direta de tal forma que qualquer dúvida , teremos prazer de imediato responder.
Escolhemos começar pelo que mais polêmica tem causado , ou seja , os psicofármacos.
Em geral , comprimidos considerados revolucionários pelas conquistas que proporcionaram no campo da Psiquiatria ,possibilitaram uma reapresentação do" louco "no imaginário popular não mais como uma criatura violenta e perigosa , que tanto temor causava, mas como um destino do humano que mais requer amor e compaixão do que exclusão e segregação .
O mais surpreendente foi constatar que hoje esta medicação extrapolou e muito os muros dos hospitais penetrando numa ampla camada da população não psiquiátrica, que faz uso frequente de tais medicações. Algo inimaginável algum tempo atrás . Como conceber que a madame bem sucedida e supostamente saudável faria uso da fluoxetina como muitos pacientes fazem.
Consideramos isto uma releitura da vida além das aparências estabelecidas e que nos aproxima a todos enquanto sofredores de seus destinos inexoráveis, e que como protagonistas estamos muito mais próximos do que gostaria nossa divisão de classes sociais.
Talvez estejamos começando a trilhar uma nova ordem que não seja nem de classes , nem de aparências , mas lugares que as trilhas e caminhos psíquicos podem nos levar se não afirmarmos o quanto o viver é um ato a ser ratificado a cada dia e o quanto somos seres do amor .
Amor enquanto consagração da vida e da com-sideração por todos , afinal ninguém vive sózinho.
Precisamos uns dos outros , mesmo que a vida esteja num limite tênue ou cheia de dificuldades em seu exercício ,pois se somos diversidades, em alguns momentos exóticas , nada nos garante , mas nada mesmo , que estes distúrbios que tanto nos assusta nos outros , não pertença à alguma camada de nosso substrato mental.
A seguir : Os psicofármacos , verdades e mitos do tratamento
Atendem a demanda por conta, por muitas vezes, de mostrarem serviço e de bem cobrar seus honorários. Convém ressaltar que os chamados psicofármacos não são uma panacéia para todos males das mentes enfermas .E só cuidadosamente devem ser usados , pois convém também saber que todos eles têm efeitos colaterais e podem dependendo do tipo usado , causar dependências.
Nossa idéia então é termos um canal de informações que nos permita esclarecer, trocar e estimular uma participação ativa do público leigo, pois a alienação é um perigo que nos ronda sempre. Um público esclarecido , que chega perto do que coloca pra dentro, é um público que ajuda a consciência da verdade. Chega de tapeação. Nosso corpo e nossa mente são preciosos demais e precisam ser cuidados para nos ajudar a manter a vida num patamar de excelência.
Se os maltratarmos pagamos um preço, em geral alto,pois há sempre reações que causam desconfortos variados .
O tema do psiquismo e seus desequilíbrios é fascinante para quem estuda e ao mesmo tempo , um campo de tanta dor e sofrimento de todos os tipos , e que envolve tantos fatores que toda humildade aí é pouca , principalmente em se tratando da existência dos outros.
Teremos um blog de amplo espectro com assuntos variados e que seja de interesse geral.
Buscaremos uma linguagem simples e direta de tal forma que qualquer dúvida , teremos prazer de imediato responder.
Escolhemos começar pelo que mais polêmica tem causado , ou seja , os psicofármacos.
Em geral , comprimidos considerados revolucionários pelas conquistas que proporcionaram no campo da Psiquiatria ,possibilitaram uma reapresentação do" louco "no imaginário popular não mais como uma criatura violenta e perigosa , que tanto temor causava, mas como um destino do humano que mais requer amor e compaixão do que exclusão e segregação .
O mais surpreendente foi constatar que hoje esta medicação extrapolou e muito os muros dos hospitais penetrando numa ampla camada da população não psiquiátrica, que faz uso frequente de tais medicações. Algo inimaginável algum tempo atrás . Como conceber que a madame bem sucedida e supostamente saudável faria uso da fluoxetina como muitos pacientes fazem.
Consideramos isto uma releitura da vida além das aparências estabelecidas e que nos aproxima a todos enquanto sofredores de seus destinos inexoráveis, e que como protagonistas estamos muito mais próximos do que gostaria nossa divisão de classes sociais.
Talvez estejamos começando a trilhar uma nova ordem que não seja nem de classes , nem de aparências , mas lugares que as trilhas e caminhos psíquicos podem nos levar se não afirmarmos o quanto o viver é um ato a ser ratificado a cada dia e o quanto somos seres do amor .
Amor enquanto consagração da vida e da com-sideração por todos , afinal ninguém vive sózinho.
Precisamos uns dos outros , mesmo que a vida esteja num limite tênue ou cheia de dificuldades em seu exercício ,pois se somos diversidades, em alguns momentos exóticas , nada nos garante , mas nada mesmo , que estes distúrbios que tanto nos assusta nos outros , não pertença à alguma camada de nosso substrato mental.
A seguir : Os psicofármacos , verdades e mitos do tratamento
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