sábado, 9 de julho de 2011
O TÊNUE LIMITE ENTRE O LEITO PSIQUIÁTRICO E QUESTÃO SOCIAL DO PACIENTE
A Psiquiatria já foi acusada de mera ideologia repressiva a favor de um sistema que produz seus critérios de saúde e doença , para garantir que a sociedade não só tenha um diferencial mas possa legitimar sua normalidade .
Teses que ganharam força algumas décadas atrás e que hoje , embora tenham tido o mérito de colocar questões corajosas , já não empolgam tanto.
Ou porque romancearam demais o sofrimento mental , ou por falta de ufanismos mais atuais acabaram em desuso, cedendo à imposição reinante de que à doença tenha se tornado mais um exercício psicofarmácologico do que psiquiátrico propriamente dito , com todas implicações que as rupturas do tecido mental acarrete no doente.
Sem negar o valor da farmácia da mente , é difícil pensar o doente fora de sua circunstância, como observava Ortega Gasset , pois quando o meio é doentio , é extremamente difícil precisar o que é de quem , já que o sistema vigente não comporta a saúde de seus membros,ou seja , todos encarnam uma loucura comum .
O paciente psiquiátrico também já foi considerado o mais forte do grupo , como aquele que podia suportar a doença negada de todos e denunciá-la em seus mecanismos sabotadores, como uma rede de comunicação duvidosa , o chamado duplo-vínculo , bem estudado em Palo Alto por Gregory Bateson , o núcleo da divisão psicótica segundo estes estudiosos.
Hoje, embora já não tenhamos teses empolgantes, que promovam debates calorosos , continuamos a tratar das mesmas doenças e com os mesmos problemas de sempre . algo como uma entressafra , à espera de alguma coisa nova de novos apontes.
Feita as contas , parece, que ao mesmo tempo, que incorporamos os valores que cada experiência nos deixou, nos rendemos ao cotidiano operacional munidos de um aparato médico tão convencional, que nos perguntamos aonde ficaram alocados os ganhos de tudo que foi feito .
A doença que já foi alvo de exortações até artísticas e cotejada como uma desrepressão de um modo doentio e estabelecido de ser , voltou ao lugar comum de uma catalogação médica , cujo tema central hoje é inclusão , que passararemos então a desenvolver.
Aqui no Brasil estabeleceu-se em determinado momento histórico , a chamada Reforma Psiquiátrica , cujo foco a princípio visava não só uma mudança nas políticas de saúde mental, bem como, a extinção do Hospital Psiquiátrico . Tinha-se em conta a idéia , já implantada , de se fazer uma rede de atendimentos primários e secundários , os chamados Centros de Atendimentos Psicossociais que seriam responsáveis pelo tratamento dos doentes em regime aberto , com atividades variadas e integrativas.
Junto com isso , fomentou-se também a possibilidade de Lares abrigados e Assistidos, onde os pacientes sem familias ou condições sociais precárias poderiam morar.
DIga-se, de forma justa que combatia-se o chamado Hospício , o depósito de loucos alienados e que passou a ser visto como négocio por parte de empresários mal intencionados . Para isso, buscou-se a mídia, que por sua vez, sem compromisso com a realidade do cotidiano institucional , passou a veícular o lado difícil das Instituições , sem entrar nos méritos de toda pervesão social presente , como se de repente, a sociedade tivesse resolvido se interessar pelos seus excluídos.
Nada disso. Ancorados por uma ideologia de teor libertador , buscou-se o quebrar das algemas , como se só alguns quissesse isso , sem se confesar aí a indiferença reinante até então ,e ainda em voga como veremos, com relação ao doente mental , essa criatura que além de sofrer e muito , ainda dá despesa a família, e não é, e nunca foi, bem visto pelo sistema vigente.
Postula-se aí, que a dimensão politíca da questão parece insuficiente para alcançar toda dimensão amorosa envolvida , o inter- jogo de ligações vinculativas que sustentam o nexo da estrutura mental , mesmo que comprometida.
O doente quer amor como nós , quer atenção , ser escutado , requer cuidados higiênicos , quer ser incluído , o apêlo que por vezes a família ou não escuta , ou não quer escutar por lhe custar incluir .
Na verdade, é como em algum nível fossemos fiscais de uma justiça, que é chamada a quase todo tempo para julgar razões entrelaçadas de vetores variados , que vão muito além de uma mera questão técnica, desencontros na ordem do amor , que parecem ter raízes na noite dos tempos.
É esse aspecto essencial do trabalho que sempre nos remete aos limites da profissão e do alcance das terapêuticas disponíveis. Pois se por um lado , busca-se reerguer o paciente quando desequilibrado , oferecendo-se medicações adequadas , inserido-o em trabalhos terapêuticos,...etc, por outro observa-se o tempo todo, que o mesmo ,perquire sobre sua destinação social, sobre sua volta à família .
E sabemos, o quanto melhorar ou piorar, é em muitos casos um regulador da dinâmica familiar , pois se pra quem trabalha na terapêutica do doente vê-lo progredir é uma alegria , por outro pra família , pode ser um transtorno , pois voltará pra casa.
A equação aí não é linear , portanto , não cabe políticas retas , que não levam em conta o oblíquo de cada situação .
O Dr Antonio Celso , psicanalista e belo estudioso , afirma que o "Hospital Psiquiátrico ainda é o meio mais protegido de se viver a loucura"e é mesmo , pois , não há linguagem para o surto , o Outro aí é a ruptura do simbólico , ou seja , o Real em sua violência invasiva.
Contém-se e conversa-se depois , medica-se para se criar uma condição de escuta , medidas imprescindíveis como forma de proteção ao doente e aos outros.
Mas e quando o paciente uma vez recuperado , não é querido pela famíla? ou quando em condições não tem pra onde ir? e quando constatamos que a família é mais comprometida que o próprio?
Por outro lado , há todo apêlo para que as internações sejam curtas (algo como 20 dias) e busca-se combater a longa permanência ( afinal um dos méritos da Reforma foi extinguir um nº considerável de leitos ,abaixo do preconizado pela OMS ) e há muita gente querendo internar.
Com isso muitos problemas conjunturais passaram a acontecer , pois uma vez pronto e não tendo pra onde ir , esperava-se então que as diretrizes políticas implantadas indicassem o caminho, de forma efetiva.Mas não , não é o que acontece.
Os municípios responsáveis pelos seus moradores nem sempre ou quase nunca têm recursos para oferecer soluções , pois doente dá trabalho e muito, os lares abrigados ainda são ficções perante à demanda , e o Estado nem sempre sabe o que fazer.
Enfim , uma rede afim e com muitas coisa desafinada, pois muito do que se prometeu não se cumpriu ,e muita coisa ficou no papel , enquanto no dia-a -dia da vida tudo tem pressa e urge, principalmente quando há dor em jogo , ou o gozo dos que excluem.
Eis o que escreve a Drª Juliana , assistente social da Clínica Ego :" Há uma redução de leitos psiquiátricos em número superior à criação dos chamados " serviços comunitários alternativos ao asilamento",cujo potencial de oferta é limitado, em especial, os hospital-dia, que acaba por atender à uma clientela com prognóstico leve e favorável ,relegando as famílias a tarefa de haver com seus doentes crônicos, e arcar com todas as dificuldades que isso significa num sistema de saúde , como o nosso."
Temos, sem dúvida, muito a aprender uns com os outros , e seria bom que nos escutassemos, já que trabalhamos para o bem comum, mas sem imaginários inimigos e desnecessários , já que a loucura é que nos move e com ela aprendemos a nos comover .
Conversemos então de perto no próximo Encontro Regional , que já vem aí.
Valeu
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário