domingo, 22 de maio de 2011

ASSISTÊNCIA PSIQUIÁTRICA

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Quem assiste e quem é assistido ?

Falar em assistência psiquiátrica , nos têrmos em que hoje se consagra , é conjugar quase momentâneamente uma história irregular , de muitas tentativas , onde ao longo do tempo e do jogo de forças sociais e terapêuticas ,muitos ensaios e muitos erros aconteceram.
Havia aí, como hoje, uma necessidade humana de encontrar uma resposta efetiva para este fenômeno , que embora milenar , sempre foi um grande desafio para os saberes estabelecidos. A idéia de uma mente que se destrói , um cenário de tormentos enigmáticos,dores que nunca disseram de onde vieram, e a possibilidade real ou fantasiosa de ser um destino comum, fez com que muitas ações ocupassem um espaço empiríco, na conta de uma potência que devolvesse minimamente que fosse, a garantia de termos um tratamento a oferecer.
Constatar um mal e não ter como combatê-lo, é algo que excita o imaginário humano. Com as enfermidades psiquiátricas pudemos bem observar este desafio . Se por um lado o doente sofria dos males do além , um tipo de interpretação que nos induzia a uma ação moralista ou incriminadora , por outro as tentativas se sucediam numa busca frenética de oferecer algum conforto possível para estas torturas , difíceis inclusive de se ver.
O doente, na medida, em que ocupava um lugar sinistro , cheio de obscuridades e de culminâncias ignorantes , acabou sendo uma ameaça a fantasia de normalidade que rege a ordem social . A exclusão se fez e rápido , não dava para continuar junto com criaturas que passamos a estranhar e que se por um lado reconhecíamos o mesmo mito de origem , o humano , por outro, somos dependentes e cheios de medo no que se refere à questões de identidade .
Depois de fazê-los navegar por aí , na conta dos favores da cidade , aportamos essa nau dos insensatos diretamente para espaços reclusos e cheios de códigos de segurança , sem saber exatamente o que queríamos proteger .
`A princípio e tudo se repete , essa nau era dos excluídos em geral, os párias tão conhecidos da cultura européia com seus castelos e luxos , um certo lixo social definidos como não pertencentes , uma negação ao direito de cidadania mental e vinculativa .
Foi preciso esperar Pinel, para que um gesto de piedade pudesse restituir ao doente, o direito simples, de sofrer mentalmente. Nota-se aqui que o sofrimento mental , por requerer acuidade sensível no olhar , nem sempre foi tido na conta de sofrimento propriamente dito e , por muitas vezes foi indiciado como simulação . Até hoje esta questão não é fácil e se tornou inclusive um álibi nas mãos dos que querem benefícios sociais apelando para tal expediente.
Intuiu-se finalmente que ,embora o sofrimento mental fosse cheio de enigmas desafiadores,era um sofrimento tão humano como qualquer outro , e que por isso não poderia prenscidir da ordem dos cuidados e atenções que os enfermos requerem.
Uma das grandes dificuldades que se apresentava é que o doente mental transgride a chamada lei da compensação , a lei que estabelece as reciprocidades no convívio .
O valor do que se dá e o reconhecimento do que se recebe , a campo das transações que seguem a ordem do amor e que não podendo ser assim , muitos tormentos estabelece.
O doente mental procura seu pertencimento , o lugar de seu reconhecimento dentro da ordem humana e que compromente a todos nós , pois diz respeito a como alijamos os que nos exigem e nos dão pouco retorno .
Não são produtivos , dão trabalho, devolvem pouco nos moldes usuais , e ainda afetam a vida de seus familiares , que por sua vez , buscam se socorrer da ordem social.
Uma cadeia entrelaçada de busca de soluções e de problemas urgentes , que qualquer leitura que pretenda repropor sem levar tudo isso em conta , ou de forma apressada , corre o risco de perder a alma de suas inovações e se tornar um mero catecismo político.
Se a "impotência gera violência" como diz o filósofo , a doença mental é um campo dessas duas faces e sua história permeia as duas num tipo de entrelaçamento difícil de separar.
A violência deve um capítulo à Psiquiatria , pois depois de importar métodos consagrados em outras áreas sociais , o louco enquanto este eterno desconhecido fez com que a própria violência tivesse que se reinventar.
Banhos frios independente da temperatura ambiente , camisa de força , espancamento pouco assumidos , e outras modalidades de tratos de contenção , estiveram em voga durante muito tempo , pois eram expressão dos nervos de quem cuidava e ação de exclusão da conveniência social.
Com o aparecimento das medicações químicas ,especialmente os neurolépticos , houve uma re-alocação dos lugares do universo psiquiátrico , pois a doença se tornou menos desfigurativa , diminuindo a força de sequestro da identidade social do doente , pelo menos de imediato, já que os efeitos medicamentosos permitiram uma certa manutenção das forças psíquicas que sustentam a vida interativa.
Essa é considerada uma grande revolução da Psiquiatria , por tudo que possibilitou , ou seja, a des-demonização da doença , e manutenção de um potência que enfraqueceu teoricamente o sinistro. Avançamos no terreno do conhecimento neuro-científico e temos tido bons ganhos com o avanço das medicações , o que por outro lado , só fez aumentar nossa ignorância , pois , temos os modelos dos efeitos na linha de frente .
Não sabemos causas, mas aprendemos a combater os efeitos e já estamos arriscando hipóteses mais ousadas , embora , nos rendendo as evidências da complexidade do campo mental . Talvez compreender a mente , seja compreender o próprio mistério da vida , e parece ser nossa vocação este querer saber .
Várias tentativas e experiências alternativas já foram feitas ao longo do trajeto , por conta de se buscar algum tipo de vanguarda nas interpretações consideradas a favor do staus quo. Desde de leituras de ideologias políticas , até a doença como uma experiência liberal e desrepressiva , muitas forças inteligentes e estudiosas se movimentaram e se enfrentaram , e até hoje se enfrentam , mostrando que o campo psi , é um campo gerador de suas próprias tensões .
A chamada Reforma Psquiátrica , se precipitando como uma Reforma libertadora ,propunha uma alteração no roteiro estabelecido para o tratamento psiquátrico , tendo em vista a possibilidade de não se ter mais o hospital psiquiátrico .
O doente seria atendido , a princípio , nas chamadas redes complementares com seus núcleos assistênciais , chegando inclusive a se cogitar que , em caso de necessidade, seria atendido em enfermarias estabelecidas no próprio hospital geral .
Tendo a questão da inclusão social como foco , buscava-se com isso evitar que , uma vez que o modelo foi considerado facilitador da alienação , dificultar a internação e manter o doente o mais possível no âmbito familiar e social .
Com isso partiu-se para uma política de exigências severas aos ditos hospitais , levando muitos prestadores de serviço nessa área a desistirem de continuarem .
Até segunda ordem, todos hospitais foram considerados suspeitos , e definiu-se uma série de critérios para que houvesse uma avaliação no sentido de se ver o que prestava ou não.
Alimentados, pela fantasia sombria, de que todos eram lugar do mal a ser combatido , em nome de um ideologia supostamente libertadora, criou-se várias regras de funcionamento , sem se fazer acompanhar pelo aumento diárias , um modo de inviabilização legal.
Humanismo , um tanto contestado, acabou reduzindo em muito o nº de leitos psiquiátricos, que hoje , já mostram seus efeitos , já que esta redução não se fez acompanhar de uma ação efetiva de construção dessa rede complementar , que tem resultado em críticas as políticas de gabinete . Óbvio, que muitos não lerão assim , argumentaram que muito já se fez, o que não negamos , mas levando-se em conta um país como o Brasil em sua extensão , experiências situadas não servem como parâmetro geral , e que uma característica da doença mental é sua urgência.
Passou-se a correr o risco de que o espaço pretendido politicamente se confunda com o próprio espaço imaginário do saber em suas pretensões políticas, o que é um equívoco grave quando se trata do sofrimento alheio.
Com isso congestionou-se muita coisa e os leitos passaram a ser concorridos por todas as forças de intervenção, inclusive , pelo aparelho judicial , hoje requisitado pelas famílias para garantirem a internação dos seus doentes.
Obviamente , que em se tratando de assistência, é impossível separar a prática terapêutica do modelo geral proposto , já que este é que define suas regras e exige obediência.
Hoje, parece que estamos todos aprendendo melhor o que a experiência vem ensinando e que não é possível execrar o hospital,na conta do vilão que segrega e mantém a alienação.
Descentralizar o hospital psiquiátrico é rever o modelo que foi estabelecido e colocá-lo no lugar depois , ou seja , do que não foi possível antes, evitando internações desnecessárias e oferecendo uma boa rede de atuação primária e secundária .
Dessa forma teremos uma ação conjunta que de fato possa funcionar, e leve em conta , a singularidade de cada caso , já que a clínica é singular .Aonde houver urgências , perigo de vida , transtornos agudos com agitações que requerem intervenções , quadros depressivos e outros que tenham o hospital como melhor recurso , então , que seja este o caminho .
Um hospital de qualidade , dinâmico , com modalidades variadas de atendimento , um hospital afinado com a inclusão , e que por muitas vezes é obrigado a arcar com a exclusão de todos , dos que não querem o doente ou dos que não sabem o que fazer , e que sem dúvida, pode prestar um serviço humano e intransferível , por ser a instância mais capacitada para tal fim.
As tensões decorrentes desse modelo e suas propostas, é o que pretendemos discutir em nosso fórum de forma ampla e justa , e contamos com presença de todos que lutam nessa área para juntos oferecermos nossas propostas estudiosas.
 Mandem suas observações ,conversemos, já aquecendo nosso Encontro.
 
 
 
 
 
 

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